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Tó Trips

Som > Concerto
FOTO PROMO 2 baixo
Local
Adro da Sé de Viseu
Horário
10 Julho > 23h00
Duração
50’ aprox
Público Alvo
M/6
Mecenas
Galp

Co-fundador de marcos da recente música nacional, como é o caso dos Lulu Blind ou Dead Combo, e membro da fase final dos Santa Maria Gasolina em Teu Ventre, Tó Trips lançou em 2009 o seu primeiro álbum a solo, ‘Guitarra 66’, pela Mbari, efusivamente recebido pela crítica. Lindo registo de música crua, aberta, generosa, de espírito nomádico, encaixa as pistas e materializações que Trips dava já nos Dead Combo. O meta-fado de Paredes, a música de fantasminhas da boémia lisboeta, a tradição cubana como vista por Marc Ribot, o lado mais lírico do western spaghetti de Ennio Morricone ou o encontro ibero-árabe do flamenco, deixando-nos com uma linguagem que entretece todos estes vocabulários e o torna uma língua sua, real como só os verdadeiramente bons e honestos o conseguem ser. Guitarrista do melancólico e do luminoso, transforma em som um homem que é profundamente português, fascinado pelas viagens – reais, internas, imaginárias e impossíveis. Regressou nesta Primavera de 2015 com o novo disco “Guitarra Makaka – Danças a um Deus Desconhecido”. E mais uma vez não se deixa Tó prender a fórmulas, não obstante possuir, à guitarra, um estilo particularmente distinto. Isto é, o aparecimento de um novo disco a solo seu deve-se, antes de mais, à necessidade de documentar o desenvolvimento e exploração de uma nova linguagem.

Mais concretamente à guitarra Resonator, com os seus cones metálicos a ampliar de modo natural o som e raízes associadas a ícones como Tampa Red ou Bukka White. Não que Tó finja aqui ser quem não é – aliás, mais longe do blues do delta do Mississippi não podia estar. Afinal, o seu interesse na tradição será apenas por aquilo que – na acepção real do termo – ela possui de mais primitivo. Isto é, o seu projeto é efetivamente o da prossecução daquilo que, em rigor, nas cordas de aço, nunca existiu em lugar nenhum. Daí que se socorra da alegoria da “ilha imaginária”, embora trabalhe igualmente no sentido de evocar memórias específicas. No fundo, mais não se fala do que de uma música que soube fazer do isolamento uma fortaleza e da independência o melhor que tem a dar de si. Levem-na convosco para uma ilha deserta que não se irão arrepender.

BIO

Naquilo que normalmente se apelidava de Música Moderna Portuguesa, o impacto da primeira banda de Tó Trips – os Amen Sacristi – foi conjuntural. Frequentadores dos concursos do Rock Rendez-Vous lembrar-se-ão deles. E colecionadores de rock nacional terão algumas das K7s ou compilações nas quais figuravam entre 1986 e 1989. Tó recorda-os sob a influência de uns Chameleons, embora na altura surgissem associados aos nomes de Big Black (de Steve Albini) ou Glenn Branca. A fechar a década foi convidado por Jorge Ferraz para ingressar nos incendiários Santa Maria Gasolina em Teu Ventre, com os quais gravou um EP. Se o combustível desses terminou, Tó não dava sinais de abrandar, fundando os Lulu Blind. O arranque da banda é apoteótico, culminando em 1993 na primeira parte do concerto dos Sonic Youth, no Campo Pequeno, e, pouco depois, na abertura para os Manic Street Preachers, no Pavilhão Carlos Lopes.

Em 1994 editam “Dread”. Mas em Portugal, ao contrário do que se passou um pouco por todo o mundo, o underground não se tornou no mainstream. E, como a de tantos outros (que na altura enchiam o Johnny Guitar), a história dos Lulu Blind, ao longo da década de 90, acaba por reflectir a desagregação no interesse do público pela música portuguesa menos católica. Não seria de estranhar que se impusesse uma mudança de ares que se fizesse equivaler a novas vivências e, claro, a uma entrada num novo milénio prenhe em significados e simbolismo. Dir-se-ia que o aparecimento do duo com Pedro Gonçalves – os Dead Combo – não tentou satisfazer outra ambição. Fiel ao tempo que a viu nascer, a curiosidade cultural que o grupo desde cedo revelou, teve o paradoxal efeito de concentrar públicos. E tudo o que se passou entretanto poderá ter contribuído para que Tó, de uma só vez, pensasse em escancarar portas que permaneciam teimosamente fechadas. Fê-lo em 2009 com o terno e intimista “Guitarra 66”, o seu primeiro CD a solo, num momento em que a música portuguesa se tornava novamente mais livre e isenta de complexos. Só que neste caso materializava-se também algo que se impôs, ao fim de mais de duas décadas, como uma necessidade artística: projectar a visão que se quer própria ao indivíduo. Tó resumia-o de forma geográfica: “um disco mediterrânico e com raízes portuguesas. Um disco ibérico e virado para o Atlântico. Cruza viagens pelo deserto africano, evoca bairros latinos nos Estados Unidos, imagina mares do sul”. Paralelamente a isso – e à construção de um público internacional através de uns Dead Combo de referências progressivamente mais arejadas – surgiram novas ideias: houve “Vi-os Desaparecer na Noite” com Tiago Gomes, uma banda sonora em guitarra eléctrica para leituras de “On The Road”, de Jack Kerouac; e deu-se a criação do iconoclasta Timespine, o trio com Adriana Sá e John Klima. Ou seja, não parou de se expandir o léxico de Tó Trips nem desapareceram do seu caminho os estímulos exteriores que tanto o alimentam. Agora, chega “Guitarra Makaka – Danças a um Deus Desconhecido”. E, mais uma vez, não se deixa Tó prender a fórmulas, não obstante possuir, à guitarra, um estilo particularmente distinto. Isto é, o aparecimento de um novo disco a solo seu deve-se, antes de mais, à necessidade de documentar o desenvolvimento e exploração de uma nova linguagem. Mais concretamente à guitarra Resonator, com os seus cones metálicos a ampliar de modo natural o som e raízes associadas a ícones como Tampa Red ou Bukka White. Não que Tó finja aqui ser quem não é – aliás, mais longe do blues do delta do Mississippi não podia estar. Afinal, o seu interesse na tradição será apenas por aquilo que – na acepção real do termo – ela possui de mais primitivo. Isto é, o seu projecto é efectivamente o da prossecução daquilo que, em rigor, nas cordas de aço, nunca existiu em lugar nenhum. Daí que se socorra da alegoria da “ilha imaginária”, embora trabalhe igualmente no sentido de evocar memórias específicas. Muitos o fizeram antes, é certo.

Falar de alguns deles – como dos Martha and the Muffins de ‘Echo Beach’ – não serve para explicar a música, mas, antes, lembrar a atitude. Os Blondie, para dar outro exemplo com berço no punk, sonorizaram em 1982 ‘Island of Lost Souls’, um falso calipso da estirpe do ‘Island Girl’, de Elton John, com credibilidade insular no trompete do porto-riquenho Perico Ortiz e inclinação nativa nuns segundos de gritos e guinchos a imitar araras e saguis. A canção inspirava-se na adaptação para cinema de “The Island of Dr. Moreau”, de H.G. Wells, produzida em 1933 pela Paramount e na qual, reagindo a um clamor ritualista que se presumia de origem autóctone, declarou Charles Laughton no

papel do doutor: “They are restless tonight.” De facto, porque nem todos podem ser o Eden Ahbez de ‘Nature Boy’, e por aí se escrutinar a condição humana em circunstâncias laboratoriais, muitas vezes se voltou à metáfora da ilha para atingir fins moralistas. Parece a cultura popular saber o que no contexto da biogeografia postulou David Quammen em “The Song of the Dodo”: que “as ilhas são santuários e terrenos férteis para o único e o anómalo”. Não terá sido por outra razão que, para dar voz a uma relação inter-racial, conforme então se dizia, tenha inventado Harry Belafonte a ficcional ilha de Santa Marta em ‘Island in the Sun’. Ou, muito antes, no ciclo “Noites de Verão”, tenha Berlioz feito residir o amor eterno numa ‘Île inconnue’. Com a devida vénia a More, e numa palavra, trata-se de utopia. Disso, sim, partilha Tó Trips. Escutam-se os temas deste “Guitarra Makaka – Danças a um Deus Desconhecido” – e nem chamámos Steinbeck ao barulho – e em muito disto se pensa e de outro tanto se desconfia. No fundo, mais não se fala do que de uma música que soube fazer do isolamento uma fortaleza e da independência o melhor que tem a dar de si. Levem-na convosco para uma ilha deserta que não se irão arrepender.

First God – https://www.youtube.com/watch?v=rAgxVjx6cRs

FOTO PROMO 2 baixo

Co-fundador de marcos da recente música nacional, como é o caso dos Lulu Blind ou Dead Combo, e membro da fase final dos Santa Maria Gasolina em Teu Ventre, Tó Trips lançou em 2009 o seu primeiro álbum a solo, ‘Guitarra 66’, pela Mbari, efusivamente recebido pela crítica. Lindo registo de música crua, aberta, generosa, de espírito nomádico, encaixa as pistas e materializações que Trips dava já nos Dead Combo. O meta-fado de Paredes, a música de fantasminhas da boémia lisboeta, a tradição cubana como vista por Marc Ribot, o lado mais lírico do western spaghetti de Ennio Morricone ou o encontro ibero-árabe do flamenco, deixando-nos com uma linguagem que entretece todos estes vocabulários e o torna uma língua sua, real como só os verdadeiramente bons e honestos o conseguem ser. Guitarrista do melancólico e do luminoso, transforma em som um homem que é profundamente português, fascinado pelas viagens – reais, internas, imaginárias e impossíveis. Regressou nesta Primavera de 2015 com o novo disco “Guitarra Makaka – Danças a um Deus Desconhecido”. E mais uma vez não se deixa Tó prender a fórmulas, não obstante possuir, à guitarra, um estilo particularmente distinto. Isto é, o aparecimento de um novo disco a solo seu deve-se, antes de mais, à necessidade de documentar o desenvolvimento e exploração de uma nova linguagem.

Mais concretamente à guitarra Resonator, com os seus cones metálicos a ampliar de modo natural o som e raízes associadas a ícones como Tampa Red ou Bukka White. Não que Tó finja aqui ser quem não é – aliás, mais longe do blues do delta do Mississippi não podia estar. Afinal, o seu interesse na tradição será apenas por aquilo que – na acepção real do termo – ela possui de mais primitivo. Isto é, o seu projeto é efetivamente o da prossecução daquilo que, em rigor, nas cordas de aço, nunca existiu em lugar nenhum. Daí que se socorra da alegoria da “ilha imaginária”, embora trabalhe igualmente no sentido de evocar memórias específicas. No fundo, mais não se fala do que de uma música que soube fazer do isolamento uma fortaleza e da independência o melhor que tem a dar de si. Levem-na convosco para uma ilha deserta que não se irão arrepender.

BIO

Naquilo que normalmente se apelidava de Música Moderna Portuguesa, o impacto da primeira banda de Tó Trips – os Amen Sacristi – foi conjuntural. Frequentadores dos concursos do Rock Rendez-Vous lembrar-se-ão deles. E colecionadores de rock nacional terão algumas das K7s ou compilações nas quais figuravam entre 1986 e 1989. Tó recorda-os sob a influência de uns Chameleons, embora na altura surgissem associados aos nomes de Big Black (de Steve Albini) ou Glenn Branca. A fechar a década foi convidado por Jorge Ferraz para ingressar nos incendiários Santa Maria Gasolina em Teu Ventre, com os quais gravou um EP. Se o combustível desses terminou, Tó não dava sinais de abrandar, fundando os Lulu Blind. O arranque da banda é apoteótico, culminando em 1993 na primeira parte do concerto dos Sonic Youth, no Campo Pequeno, e, pouco depois, na abertura para os Manic Street Preachers, no Pavilhão Carlos Lopes.

Em 1994 editam “Dread”. Mas em Portugal, ao contrário do que se passou um pouco por todo o mundo, o underground não se tornou no mainstream. E, como a de tantos outros (que na altura enchiam o Johnny Guitar), a história dos Lulu Blind, ao longo da década de 90, acaba por reflectir a desagregação no interesse do público pela música portuguesa menos católica. Não seria de estranhar que se impusesse uma mudança de ares que se fizesse equivaler a novas vivências e, claro, a uma entrada num novo milénio prenhe em significados e simbolismo. Dir-se-ia que o aparecimento do duo com Pedro Gonçalves – os Dead Combo – não tentou satisfazer outra ambição. Fiel ao tempo que a viu nascer, a curiosidade cultural que o grupo desde cedo revelou, teve o paradoxal efeito de concentrar públicos. E tudo o que se passou entretanto poderá ter contribuído para que Tó, de uma só vez, pensasse em escancarar portas que permaneciam teimosamente fechadas. Fê-lo em 2009 com o terno e intimista “Guitarra 66”, o seu primeiro CD a solo, num momento em que a música portuguesa se tornava novamente mais livre e isenta de complexos. Só que neste caso materializava-se também algo que se impôs, ao fim de mais de duas décadas, como uma necessidade artística: projectar a visão que se quer própria ao indivíduo. Tó resumia-o de forma geográfica: “um disco mediterrânico e com raízes portuguesas. Um disco ibérico e virado para o Atlântico. Cruza viagens pelo deserto africano, evoca bairros latinos nos Estados Unidos, imagina mares do sul”. Paralelamente a isso – e à construção de um público internacional através de uns Dead Combo de referências progressivamente mais arejadas – surgiram novas ideias: houve “Vi-os Desaparecer na Noite” com Tiago Gomes, uma banda sonora em guitarra eléctrica para leituras de “On The Road”, de Jack Kerouac; e deu-se a criação do iconoclasta Timespine, o trio com Adriana Sá e John Klima. Ou seja, não parou de se expandir o léxico de Tó Trips nem desapareceram do seu caminho os estímulos exteriores que tanto o alimentam. Agora, chega “Guitarra Makaka – Danças a um Deus Desconhecido”. E, mais uma vez, não se deixa Tó prender a fórmulas, não obstante possuir, à guitarra, um estilo particularmente distinto. Isto é, o aparecimento de um novo disco a solo seu deve-se, antes de mais, à necessidade de documentar o desenvolvimento e exploração de uma nova linguagem. Mais concretamente à guitarra Resonator, com os seus cones metálicos a ampliar de modo natural o som e raízes associadas a ícones como Tampa Red ou Bukka White. Não que Tó finja aqui ser quem não é – aliás, mais longe do blues do delta do Mississippi não podia estar. Afinal, o seu interesse na tradição será apenas por aquilo que – na acepção real do termo – ela possui de mais primitivo. Isto é, o seu projecto é efectivamente o da prossecução daquilo que, em rigor, nas cordas de aço, nunca existiu em lugar nenhum. Daí que se socorra da alegoria da “ilha imaginária”, embora trabalhe igualmente no sentido de evocar memórias específicas. Muitos o fizeram antes, é certo.

Falar de alguns deles – como dos Martha and the Muffins de ‘Echo Beach’ – não serve para explicar a música, mas, antes, lembrar a atitude. Os Blondie, para dar outro exemplo com berço no punk, sonorizaram em 1982 ‘Island of Lost Souls’, um falso calipso da estirpe do ‘Island Girl’, de Elton John, com credibilidade insular no trompete do porto-riquenho Perico Ortiz e inclinação nativa nuns segundos de gritos e guinchos a imitar araras e saguis. A canção inspirava-se na adaptação para cinema de “The Island of Dr. Moreau”, de H.G. Wells, produzida em 1933 pela Paramount e na qual, reagindo a um clamor ritualista que se presumia de origem autóctone, declarou Charles Laughton no

papel do doutor: “They are restless tonight.” De facto, porque nem todos podem ser o Eden Ahbez de ‘Nature Boy’, e por aí se escrutinar a condição humana em circunstâncias laboratoriais, muitas vezes se voltou à metáfora da ilha para atingir fins moralistas. Parece a cultura popular saber o que no contexto da biogeografia postulou David Quammen em “The Song of the Dodo”: que “as ilhas são santuários e terrenos férteis para o único e o anómalo”. Não terá sido por outra razão que, para dar voz a uma relação inter-racial, conforme então se dizia, tenha inventado Harry Belafonte a ficcional ilha de Santa Marta em ‘Island in the Sun’. Ou, muito antes, no ciclo “Noites de Verão”, tenha Berlioz feito residir o amor eterno numa ‘Île inconnue’. Com a devida vénia a More, e numa palavra, trata-se de utopia. Disso, sim, partilha Tó Trips. Escutam-se os temas deste “Guitarra Makaka – Danças a um Deus Desconhecido” – e nem chamámos Steinbeck ao barulho – e em muito disto se pensa e de outro tanto se desconfia. No fundo, mais não se fala do que de uma música que soube fazer do isolamento uma fortaleza e da independência o melhor que tem a dar de si. Levem-na convosco para uma ilha deserta que não se irão arrepender.

First God – https://www.youtube.com/watch?v=rAgxVjx6cRs